29.12.13

Na sua entrevista com a Judite de Sousa, a Cristina Ferreira dizia que, nos dias de hoje, ainda não era fácil para um homem ser conhecido como "o marido de". Que aquela história do homem ter que ganhar mais, ser mais conhecido e, no fundo, o pilar do casal, ainda estava muito presente na cultura portuguesa. Por isso mesmo, se calhar a relação dela não teria vingado, por ele ser "o marido" de quem era.
Portanto, para o homem não é fácil, porque o rebaixa ou o melindra na sua condição. E para a mulher? Ser conhecida como "a mulher de", é mais aceitável?
Pois eu aqui confesso: eu sofro o estigma de ser "a mulher de". Esse estatuto coloca-me sempre na boca do povo. Sou a beneficiada, a que não tem de se esforçar muito, a que tem a vida facilitada, a que por ser quem é tem tudo o que deseja e ainda de bandeja. E a minha [grande] sorte, é que o meu casamento já vinha de tempos antes da minha entrada nesta empresa, porque senão, eu era aquela que subiu e tem o que tem porque me envolvi "com". Nunca, por ser mulher de quem sou, fui tomada como coitadinha, como a incompetente que ganhou o lugar sem mérito, como a pobre-desgraçada que ganha menos, como aquela que está na sombra do marido. Muito pelo contrário! Os atributos que me aplicam são tudo menos simpáticos. São tudo menos munidos de sentimentos de pena.
E é aqui que a porca torce o rabo. O homem ''marido de'' é um pobre-coitado; a mulher ''mulher de'' é uma fútil, uma interesseira, uma beneficiada, muitas vezes apelidada de nomes próprios do calão de quem vende o corpo. O ''marido de'' tem toda a legitimidade de se sentir prejudicado; a ''mulher de'' deveria dar-se por contente, porque lhe saiu a sorte grande.
E, minha gente, nada mais errado. Por ser a mulher de quem sou, dentro da minha empresa, se eu não der o exemplo sou apontada, se eu não fizer mais e melhor sou criticada e mesmo que não faça nada mesmo, as pessoas sempre vão achar e comentar sobre mim e sobre a minha vida. E, no entanto, dentro da minha cabeça, eu tenho as coisas muito bem resolvidas. Somos um casal (dentro ou fora da empresa), mas trabalho é trabalho, amor é amor. Eu não o deixo ficar mal, não por ele, mas por mim, pelo meu brio profissional; trabalho muito, mas para meu proveito e satisfação; estou onde estou por mérito, não por empurrões ou cunhas; dedico-me e sou profissional, porque só assim me poderia sentir bem comigo própria. E os benefícios de que as pessoas falam, só por ser ''a mulher de'', de nada são benéficos; muito pelo contrário, tenho de fazer cedências, tenho de aceitar a agenda dele, tenho de me prejudicar em muitas situações - não em prol da vida profissional, mas para poder conjugá-la com a pessoal. E isso ninguém entende, ninguém repara, ninguém comenta.
Portanto, a próxima vez que se referirem a uma mulher como sendo ''a mulher de'', fazendo juízos de valor, pensem duas vezes. Pode ser que estejam perante um caso como o meu.

3 comentários:

Richter disse...

Muito bem escrito! :)

Rita disse...

:) obrigada!

Anónimo disse...

comprendo perfeitamente! mas penso que a cristina deu esse exemplo do "marido de" porque foi o que aconteceu com ela, daí ela se referir aos homens.

Ser a "mulher de" não é fácil, mas acho que ser o "marido de" é bem pior.