3.11.11

para as Marias desta vida.

Tu que estás a lêr isto: quando te aborreceres porque ainda não foi desta que compráste aquelas botas da Globe ou porque ainda não conseguiste ir torrar um subsidio de natal na h&m; quando te entrar uma neura porque em vez de conseguires correr 5 km, fizéste gazeta aos ténis e ficáste a dormir na cama; quando todas as tuas preocupações forem em volta da cor das unhas, do corte de cabelo ou da depilação definitiva; quando não olhares mais além do que o teu umbigo; quando a real maçada for o relatório que nunca mais está acabado; quando não houver mais dúvida nenhuma a não ser qual o destino rural-e-ultra-mega-in para passar o fim de semana; quando nada mais no mundo interessar do que o ultimo gadget que está a ser lançado no mercado; quando a tua felicidade se basear em aparecer em eventos-festas-de-rissol-e-croquete; quando o teu maior sonho for a decoração da casa nova que possivelmente nem chegarás a ter; quando achares que os teus filhos são perfeitos e o teu marido é perfeito e a tua mulher é a dama do lar perfeita e a louca na cama perfeita; quando os teus objectivos forem traçados em prol da tua e exclusivamente tua felicidade e concretização; quando achares que a maior desgraça é ganhar cinco quilos; quando sentires que só serás feliz quando estiveres confortavelmente instalada na tua vidinha.. pensa na Maria.
A Maria é a minha amiga. A Maria gosta de se vestir bem, de andar confortavelmente calçada, de cuidar do seu corpo e da sua imagem, de poder ir passar os fins-de-semana com a familia ao Alentejo e de comer em bons restaurantes. A Maria é jovem e é bonita. A Maria tinha tudo para ser a pessoa mais feliz do mundo, com o seu corpo elegante, com o seu marido perfeito, com a sua casa de sonho. Mas a Maria, enche-se de força todos os dias quando se levanta de manha e enfrenta cada dia como se fosse o último. A Maria é a pessoa mais forte que eu conheço. A Maria perdeu a sua pequena filha há pouco mais de um ano. Por isso, a Maria teria todos os motivos para estar bastante zangada com a vida, contudo, tenta colocar um sorriso em cada palavra que diz e tenta viver os seus dias devagar. Porque a dor de se perder um filho não se consegue explicar.
Por isso, tu que estás a ler isto: quando achares que uma acção ou uma palavra são o suficiente para te estragar o dia, pensa na Maria. E imagina como serão os dias dela, sentindo saudades da filha.
E isto também se aplica a ti, que estás a escrever isto.

9 comentários:

salto para a lua disse...

um post inspirador, muito bem!

susana disse...

Gostei deste post, há coisas que nos fazem descer à terra e ver que temos tudo...

▼ Danii disse...

gostei muito, grandes verdades!

Turista disse...

Querida Rita, obrigada por este excelente texto. Vou lembrar-me sempre. da tua amiga Maria.

Imensidão dos dias disse...

Obrigada pelo teu texto... quanto vezes nos esquecemos das Marias? Tão verdade o que escreveste.

abspinola disse...

Perfeito e obrigada Rita por aqui publicares estas palavras que enchem de força cada momento que possamos passar...

Uma força de vida, e com esperança e claro viver cada dia de cada vez.

Bjstos

Panda disse...

Mas que belo texto. Os meus parabéns.

mary disse...

Fiquei arrepiada ao ler isto. Mas a verdade, a boa verdade, é que raramente nos lembramos das Marias. Ou das crianças que todos os dias morrem de fome. Ou dos inúmeros sem abrigo que morrem de frio na rua. Se nos lembrássemos, mais de metade desta população era hiper feliz. O que acontece é que, inevitavelmente, temos as nossas vidas e tendamos a fazer o mundo girar à nossa volta... Pode-se-lhe chamar uma espécie de egoísmo mas nem acho que o seja na verdadeira palavra. Que, assim como não podemos viver olhando para a vida de quem tem tudo sentindo-nos menos, também não podemos viver olhando para a vida de quem não tem nada sentindo-nos mais...
No fundo é tudo uma questão de perspectivas e comparações, mas não acho que a vida seja algo que possa ser comparável...

mãeee disse...

Rita,
agora lembro-me também da tua amiga Maria. Tenho uma amiga. A Madalena (chamemos-lhe assim). Desde 1999 que a Madalena sabe o que é acordar sem a sua pequena filha, arrancada à vida em menos de 48h, de forma inexplicável. Ficou a dor, o amor pela filha mais velha. Veio o amor pela terceira filha, entretanto nascida.
Uma dor destas não se apaga, não se medica senão com amor e profunda amizade...
Hoje, a minha amiga Madalena vive uma nova reviravolta na sua vida, nascida nesse mesmo momento. Mesmo passados estes anos, o casamento não sobreviveu. E ela está a apanhar os cacos da sua vida e a reconstruir-se como pessoa, mulher e mãe.
Penso muito na minha amiga Madalena, dedico-lhe tempo e pensamento... estou presa até no blog por palavras que não escrevo e medos que não confesso.
As Marias e Madalenas desta vida estão cá para nos ajudarem a sermos mais felizes com o que temos. conquistamos. conseguimos. mesmo os quilos a mais. mesmos os medos e inseguranças. também os beijos e as carícias. o cheiro a bolo quente a sair do forno. o amor.
Beijo enorme Rita e desculpa o testamento