24.8.11

p.a.i. (posso amar-te infinitamente?)

Todos perdemos alguém na vida. Sem ter morrido, o meu pai achou que não queria mais fazer parte da minha vida, trocando uma familia por outra, assim como quem troca a roupa interior. Assim. Duro e frio como o aço. A minha filha tem quase 5 anos e ele, pura e simplesmente, não a conhece, porque não a quer conhecer. Eu, de caco a pó transformei-me em tudo e mais alguma coisa que possam imaginar. Batí no fundo e voltei a levantar-me porque as circunstâncias da vida não nos permitem andar sempre de rastos. Hoje sou uma pessoa diferente. Hoje há um grande buraco no meu peito, que não acalma por visitar um túmulo. Simplesmente nunca soube onde chorar uma pessoa que desapareceu da minha vida. E que era o meu herói. Não fiz luto, não o enterrei. Mas, tal como acontece com os mortos, deixei de ouvir a sua voz, de o ver, de o sentir, de me rir com ele, de me abraçar a ele, de dançar com ele. Tudo porque ele assim o quis.
Já se passaram 5 anos e dói como se tivesse sido ainda há bocado. Tirei todas as fotos da minha vista, tentei borrar a lembrança daquela valsa desajeitada e nervosa que dançámos no meu casamento, o passo sentido com que me levou ao altar, tentei esquecer-me do som da sua voz e do seu cheiro. Do meu pai, aquele que seria sempre o único verdadeiro homem da minha vida.

Sempre que oiço esta música, não consigo controlar as emoções. Choro compulsivamente porque, simplesmente, acredito que cada sílaba foi escrita para mim. Embora a vida esteja toda à minha frente, desde aquele dia, eu crescerei até que nasci.

7 comentários:

ombemua disse...

:o(
POcas....agora fiquei assim assim choquinha :o(
Que consigas ultrapassar tudo e que o teu pai um dia acorde para a realidade e volte a abracar a filha.

Baci*

Manuela disse...

Querida Rita, deve ser doloroso, esse teu sentir...

Rita disse...

ombemua : obrigada pelas tuas palavras.. de facto, acho que até já perdia a esperança de um acordar.. não é que tenha já conseguido ultrapassar, porque não o consegui, mas creio que vou no bom caminho! :) beijo.

Manuela: é doloroso sim. muito. beijinho.

mary disse...

Querida Rita,
Ontem à noite deitei-me e assim fiquei. A morrer de ódio de insónias, creio que fiquei pela cama umas 3h antes de adormecer. Nessas 3h a minha cabeça estava a mil, a pensar numa imensidão de coisas. Do nada, pensei em ti e no bebe que querem ter. Dei por mim a pensar se ja tinha passado o "periodo de carencia", se ja podiam tentar de novo, se iam conseguir. E depois pus-me a pensar porque raio pensei em ti. É engraçado, mesmo, isto de ler as pessoas todos os dias, parecemos realmente quase todos amigos.
E hoje ao ler este post não pude deixar de querer dizer uma palavra amiga, não que ela vá alterar alguma coisa. É realmente chocante a situação, aos meus olhos pelo menos, porque ver pais abandonarem os filhos quando sao pequenos é uma realidade talvez constante, mas um pai que dançou contigo no teu casamento e que depois desaparece e nem se digna a querer conhecer a neta... Os pais desaparecem, imagino eu, por não quererem acatar com as responsabilidades de educar uma criança. Financeiras, principalmente. O teu pai só tinha a responsabilidade de continuar a amar. Tarefa facil, parece-nos nós, a principio. Não continuo. Eu concluo que era por não saber mais. Não tinha mais amor. E realmente, de pessoas que não têm amor para dar não precisamos nós de fazer a nossa vida. Vai doer para sempre, que é daquelas situações ultrapassáveis mas inesquecíveis.
E isto só me reforça a ideia de que a morte, apesar de brutalmente dolorosa, deixa-nos com a certeza absoluta de que acabou, ja nao esta ca aquela pessoa. Enquanto que uma pessoa que nos deixa deixa-nos sempre a duvida, a incerteza, as questoes, a curiosidade de onde estara, uma inquietação por anos e anos a fios...

mary disse...

*continuou

De qualquer forma, um beijinho caloroso e uma mão no ombro :)

mari disse...

:(

Rita disse...

Mary: :) estou com um sorriso nos lábios ao lêr-te.. é muito curioso como sentimos esta empatia, este carinho por pessoas que só lemos, mas que sentimos cada palavra como se estivessemos sempre juntas.. :) Obrigada. Muito obrigada! Nem imaginas o quão boa foi esta tua 'surpresa'.. e já agora, bebés, só lá para dezembro.. a ver vamos!!

Mari: sorriso, please.. isto foi um desabafo. Dói, mas suporta-se.. senão, não estava aqui.. :) .. como eu tb gosto de te ler!

Beijinho grande para as duas!!