30.7.14

As coisas que eu quero que saibas.

Vais crescer depressa demais e nem tu nem eu daremos pelo tempo passar. Umas vezes vais achar que eu sou uma mãe porreira, noutras vezes vais emergir no teu mundo e só me darás licença para lá entrar se quiseres. Vais ter desilusões, as tuas amigas vão ir e vir como as marés, mas eu estarei sempre aqui, de braços abertos para te receber. Muitas vezes não entenderás as minhas decisões, mas quero que saibas que as tomo porque só quero o melhor para ti.
Quero que tenhas orgulho em ti e em nós, que saibas o valor que tens e aquilo que representas. Quero que preenchas a tua vida com amor e alegria. Quero que te valorizes e que nunca deixes que te digam que não és boa o suficiente, ou que não és capaz de fazer o que quer que seja. Quero que tentes e que proves que, se tu quiseres, tu vais onde desejas e que ninguém te pode dizer o contrário.
Quero ser a primeira pessoa que tu procures quando estiveres triste. Quero ser a tua primeira opção numa aflição. Espero que encontres o amor da tua vida, embora saiba que muitas vezes nessa busca encontramos muitos dissabores e decepções. Mas nunca deixes que um homem te subestime ou te rebaixe. Ama sempre muito e verdadeiramente. Apaixona-te pelo que te fizer verdadeiramente feliz.
Não permitas que te controlem o pensamento, que te julguem pela tua aparência, que menosprezem as tuas origens. Quero que te sintas bem contigo própria, sejas gorda ou magra, alta ou baixa. Porque o nosso amor-próprio é uma importante ferramenta na construção de quem somos. Se não gostares de ti, não conseguirás gostar do resto do mundo.
Nunca te esqueças dos valores que te ensinámos, da educação que te demos. Se faz favor e obrigada, sempre fizeram a diferença. Sê tu própria e não um espelho dos outros. Respeita o próximo. Chora, ri, vive, conhece o mundo. Voa sempre que quiseres, mas volta ao teu ninho sempre que puderes.
E nunca, nunca te esqueças, que do amor foste feita, que toda tu és amor e que é do amor que te temos que vivemos.

29.7.14

perguntem-me onde gastar dinheiro, que eu respondo.

philips



E a compra de hoje é assim para o puxadinha. Pela módica quantia de cerca de 210€, podemos trazer para casa a tecnologia de remoção de pêlos a luz pulsada. Ok, não é para todas as carteiras, mas se formos fazer as contas, pensamos duas vezes. A saber: quanto nos custa fazer a depilação total numa esteticista? E se formos a um centro de beleza fazer o tratamento de luz pulsada, a quanto nos sai cada sessão? Pronto. Aqui aliamos a facilidade de fazer o tratamento em casa, com o baixo custo. E será que funciona?
Bem, eu já tinha feito duas sessões, há cerca de três anos, num centro de tratamento especializado. Na altura, vi resultados logo após a primeira sessão. Entretanto engravidei e não pude continuar.

Desde que comprei a Philips Lumea Comfort, ainda só fiz uma sessão e tcharan!, estou a ver resultados. O pêlo demora mais tempo a crescer e em algumas zonas já nem cresceu por completo. E isto com apenas uma sessão! Convém que saibam que eu sou daquelas infelizes que representam bem a nossa evolução da espécie. Portanto, resulta mesmo!

Os primeiros tratamentos devem ser feitos com duas semanas de intervalo e não se deve apanhar sol (idas à praia devem esperar, logo a melhor altura do ano não é esta!) ou aplicar auto-bronzeadores. De resto, todas as informações e recomendações vêm muito bem explicadinhas no manual do utilizador. Dá para a menina e para o menino e dos olhos para baixo vale qualquer zona. É prática, funcional e muito intuitiva. A minha nova amiguinha!

plus size.


Cinquenta e quatro quilos. Foi um dos pesos mais baixos que me lembro, na minha existência. Um ano antes de engravidar do Manel. E nunca gostei do que vi no espelho. Achei sempre que estava sempre qualquer coisa a mais, ou nas ancas, ou nas pernas. Entretanto, engordei. Foram quilos galopantes. Daqueles que se vão notando de semana a semana. A frustração e a angustia que me consumia, porque cada vez mais deixava de gostar realmente do que via em mim. Calças postas de parte, túnicas mais largas, pouca confiança e amor-próprio. Entretanto, engravidei. Deixei de me preocupar com as formas do corpo, para me importar verdadeiramente com o que gerava dentro de mim.
O choque foi-se dando lentamente quando nasceu o Manel. Os últimos dez quilos a perder para chegar aos sessenta, que tinha antes de engravidar, pareciam não querer sair de mim. Tinham-se instalado para sempre à volta da minha cintura, nas bochechas da cara, nas coxas. Mais uma vez, olhar para mim, ao espelho e aceitar o que via, era um grande desafio. Não se tratava de falta de vontade ou de espírito de sacrifício. A verdade é que eu nunca fui muito dada a ginásios e as dietas não me seduzem. E os meus horários não me permitem ter uma vida organizada no tempo e no espaço, para poder investir assim em mim. Na verdade, qualquer desculpa que eu pudesse dar para não ter feito muito por perder os quilos que me incomodavam, não eram verdadeiras desculpas. Eu só inventava escapes para a inércia, para a preguiça. No fundo, do que é que eu estava à espera? Não existem soluções milagrosas. Se queres trabalhar o teu corpo, tens de fazer isso mesmo: trabalhar!

Aos poucos [muito lentamente] tenho perdido um ou outro quilo. De vez em quando assumo atitudes radicais: dieta rápida, detox, batidos. Tudo coisas que nos iludem de uma realidade que está mesmo à nossa frente: não existe uma dieta que funcione verdadeiramente. O que nós temos de aprender é a fazer uma alimentação cuidada, saudável. E precisamos de exercício físico para tonificar o nosso corpo. Precisamos de aprender a comer e precisamos de nos exercitar. Tudo q.b., tudo com peso e medida, tudo naturalmente e sem obsessões. 
Mas, acima de tudo isto, existe a maior das motivações: amor-próprio. Gostarmos de nós e sentirmos que estamos bem com o corpo que temos, é o nosso melhor aliado para conseguirmos estar em paz.
Acredito que muitas destas inquietações e desconfortos se prendem com a imagem que a sociedade define de beleza. Uma mulher magra é mais bonita, provavelmente mais bem-sucedida, é melhor aceite socialmente. Olhamos e criticamos mais facilmente uma mulher gorda, pela maneira como se veste, do que o fazemos com uma magra. Os padrões sociais invertem-se na hora de avaliar duas mulheres completamente diferentes, no que respeita a questões de peso. Infelizmente, esta é a realidade. A própria indústria de moda feminina exclui dos seus padrões os tamanhos grandes. Os manequins das montras parecem cidadãs do Biafra. É duro e cruel, mas é a realidade. Digam-me: quantas apresentadoras de televisão, por exemplo, estão acima do peso? Ou actrizes? Vivemos com a imagem do que o que vende é magro, seco, sem gordura localizada. E isto entra pelo nosso subconsciente a dentro. Infalivelmente.

E vai daí, dou de caras com esta menina, toda ela roliça, com um sorriso encantador e uma cara linda. Pela primeira vez, a Pirelli, conhecida por lançar calendários destinados ao público masculino [os célebres calendários dos mecânicos, serralheiros e afins], fotografa e publica entre meninas de cintura de vespa e rabinhos pequeninos e empinados, a bonita Candice Huffine. Contra todos os padrões de beleza impostos. Num acto misto de rebeldia e coragem, onde se mostra a beleza das verdadeiras curvas femininas. Ela, que ao lado das outra modelos, dá uns quinze a zero em naturalidade e autenticidade. Ela, que pela primeira vez e verdadeiramente, representa a maioria das mulheres neste planeta. Com as suas gordurinhas, a celulite, as covas nos joelhos, o peito farto. E com toda a graciosidade que roça o saudável, que no fundo, é o que se quer.
Então, eu olho para mim. Estabeleci uma meta quando me determinei a perder peso. Fixei o alvo que marca os cinquenta-e-oito na balança. Tenho sessenta-e-três. Faltam cinco. Já não o vou fazer porque não gosto de me ver com tshirts justas. Vou fazê-lo só se eu quiser mesmo, não porque uma sociedade me mostra que tenho de o fazer. Até porque, felizmente, creio que o mundo em que vivemos está a acordar para este problema. E os passos estão a ser dados, pelas grandes marcas que nos apresentam a Candice e outras tantas, modelos que representam as mulheres reais. Com corpos reais. Sem medos ou preconceitos.




28.7.14

perguntem-me onde gastar dinheiro, que eu respondo.

Untitled #24


Ou eu sofro de uma grande memória selectiva ou não me lembro de um verão tão merdoso como este, em toda a minha existência.
Acabo de ir à varanda ver se a roupa já secou. Noutros verões, a esta hora, estaria ainda um calor abrasador, quase sufocante. O ar quente entrar-me-ia pelas narinas e queimaria a garganta. Hoje não. Confesso que até me arrepiei com a brisa fresca, o vento forte.
Se bem que eu e grandes calores não vamos à bola juntos, isto assim também não tem graça nenhuma. É a mesma coisa que dizer que estamos em Julho [e estarmos mesmo!] e agir como se estivéssemos em Março. Não tem lógica absolutamente nenhuma. E chateia.

Pedes pouco para ser feliz. E és feliz de muitas outra maneiras, que eu sei. Mas isto, enfim.. isto está-te no sangue, na pele. Não precisas literalmente dela para viver, mas sem ela vives um pouco pela metade.
Nunca vi ninguém tão livre e descontraído como tu, quando assumes o controlo no guiador e rodas o punho. Cada ronco de motor é uma batida cardíaca. Vê-se nos teus olhos. Sente-se no teu sorriso de menino pequenino a quem se acabou de dar um doce. Como pode uma máquina fazer tanto pela felicidade de um homem? Um homem crescido, de barba rija, a ceder à adrenalina de voar baixinho, a entrar num mundo quase solitário onde o prazer de conduzir se sobrepõe a qualquer outra coisa.
Sim, tu pedes muito pouco para ser feliz. Duas rodas, cilindros em v ou em linha, o som apaixonante do motor, qual banda britânica em memorável sinfonia. A estrada à tua frente, sem destino nem hora marcada, umas boas curvas, o vento a favor e o sol a brilhar. A liberdade e a paixão com que te entregas é uma coisa que não sei explicar por palavras. Só te admiro. 
E arrumava agora dois pares de roupa, as escovas de dentes e as carteiras. Ia contigo onde quer que fosse. Só tu e eu, a estrada à nossa frente, sem destino, sem pressas. Só tu e eu e a nossa vontade de sermos estupidamente felizes. Só a tua alegria. Só o meu consolo de te ver feliz. E tu, que pedes tão pouco para o ser..
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27.7.14

Saudade não se define, sente-se. E chega a doer tanto como uma ferida aberta. Sinto-te em cada bater do meu coração e tenho tanta vontade de te tocar a pele, de te cheirar, de percorrer os meus dedos nos teus cabelos, que sufoco entre cada respirar. Tu que és parte de mim e que de mim vieste a este mundo, que no teu sorriso me perco e me acho, que o amor que te tenho é grande demais para carregar no meu coração. Não me sais do pensamento e quanto mais sinto a tua falta, mais te quero, mais preciso de ti, das tuas mãos pequenas nas minhas, dos teus beijos sinceros e doces, do teu olhar calmo e inocente procurando o meu. E no silêncio escuto a tua voz, o teu riso; fecho os olhos e ali estás tu, nas tuas brincadeiras, na tua alegria, no teu mundo. Os teus braços abertos na minha direcção, correndo para o meu abraço, de sorriso rasgado. Preciso de ti para quase tudo nesta vida. E quero tanto estar contigo que o meu coração encolhe de dor e tristeza por te saber longe. Saudade não se define, sente-se. E dói, dói muito esta saudade de ti.

[para a minha M.]

24.7.14




Os dias quentes são convidativos. Uma esplanada, um areal, ir só ali pôr os pés de molho. Dispenso a areia [alcatifar a praia ou mandar plantar relva até à beira-mar era uma boa opção] mas não dispenso o mar, o cheiro da água salgada, o bronzeado na pele. Há muito tempo que não passo umas boas horas assim. No descanso do corpo e da alma. Estar ali só por estar, para carregar energias, fazer fotossíntese, aquecer a alma e limpar a mente. Gosto tanto dos dias assim.

No mês em que todos fazem a auto-estrada no sentido sul, nós iremos para norte. Desengane-se quem acha que vamos estar de papo-para-o-ar, a ver passar os navios, na lanzeira das férias. Não senhora. Nós quando nos metemos em aventuras, é à séria. Não é para meninos.
Aceitam vir fazer uma perninha à capital, a modo de reforços? Pois sim senhora, mas está claro que sim. Eu visto o fato de super-mulher, ele vai tipo spider-man e carregadinhos de poderes mágicos lá vamos experimentar a modalidade Agosto-na-capital. Num aeroporto à seria, com movimento à séria. Tudo tão à séria que estou quase a ter um colapso nervoso e desistir.
Sim, confio nas minhas capacidades. Sim, sei que sou uma profissional exemplar.. mas tenho muito receio da realidade que vou encontrar. A única consolação é saber que no fim do mês estou de volta. Com uma experiência única para contar. Desejai-me sorte!

22.7.14

Nunca sabemos quando o nosso destino pode ser mudado. De um dia para o outro, de uma hora para a outra, num minuto. O melhor é não dar nada como certo, não garantir que temos tudo controlado. E tentar viver assim sem stressar, sem ansiedades ou medos. Pode parecer um contrassenso, uma questão difícil de equacionar, principalmente para quem gosta de viver sempre organizado e com os planos diários cronometrados ao segundo. Mas, o destino é imprevisivel e troca-nos as voltas. E temos de estar preparados para saber lidar com isso. Ou corremos sérios riscos de enlouquecer. E esta máxima vale para tudo na vida: amor, trabalho, saúde.. não somos donos do tempo, nem das voltas que ele dá. Dizem que somos nós que fazemos o nosso destino, mas eu não acredito. Ele já está escrito, nós é que julgamos que temos a decisão final.. e, no final, as coisas correm sempre como têm de acontecer.
O truque? Não desesperar. Afinal, estamos nesta vida de passagem e só temos de fazer com que seja uma viagem feliz!

19.7.14

From me to you » from mother to son

2 anos. Dois. E um amor que não pára de crescer.

O meu pequeno faz dois anos. E olho para ele incrédula. Como foi possível terem passados 24 meses assim, tão depressa, tão confusos, tão maravilhosamente felizes?
Eu sei, isto é uma espécie de cliché: ainda ontem o tinha acabado de nascer nos meus braços e hoje já faz dois anos. Sim, qualquer mãe dirá a mesma coisa, mesmo que não o admita e mesmo que seja lá no intimo do seu ser.
Caramba! Dois anos. Dois anos desta pestinha pequenina que veio pôr as nossas vidas de cabeça para baixo, desarrumar a casa toda, gritar e fazer birras, gargalhar sonoramente e alegremente sempre que alguma coisa o faz feliz. E sim, não tem nada a ver com a irmã. Ela, um poço de calma e ponderação, que aos dois anos já era capaz de ter mais maturidade que um puto de dez anos, sempre muito composta e bem-comportada. O dia e a noite. O Yin e o Yang. O reggae e o heavy metal. Mas super-apaixonados um pelo outro.
E agora eu podia desfazer-me aqui num rol de coisas que ele já faz ou diz, contar peripécias e histórias muito engraçadas sobre ele, gabar-lhe as qualidades e queixar-me do feitio que herdou da mãe. Mas não o farei. Este post tem outro propósito.
Serve apenas para lembrar que hoje, faz dois anos que pari o meu segundo filho. Ficámos ainda mais completos e somos ainda mais felizes. E a chegada do Manel veio inundar o coração da Mariana. Sinto que ao longo destes dois anos, a minha filha cresceu em todos os aspectos. Mas o que a mudou verdadeiramente foi sentir que existe uma espécie de amor que não se explica, que não se quantifica, que não se divide. E vê-los juntos, os dois cúmplices, faz-me acreditar que cumpri o propósito nesta vida: unir duas pessoas [as pessoas mais importantes do meu mundo] num amor sem igual.

Por isso, meu pequeno monstrinho, meu pequeno-homem, amor-maior das nossas vidas: sê imensamente feliz, com a certeza de que todos te amamos mais do que nos cabe no coração.

18.7.14

Regresso ao passado

Abro os olhos e tenho de novo quinze anos. Já é quase meio-dia, o calor lá fora é absurdo, sinto-me mole e sem energia. Tanto faz se é fim de semana ou quarta-feira. Estou de férias há alguns dias. O melhor e mais aguardado tempo do ano: as férias de verão. Os dias compridos, quentes, sem preocupações, sem horários, sem estudo. As noites de saídas, de amigos, de gelados e café na esplanada, de bares na praia, festas da espuma. Já tenho um bronze de meter inveja e a escola mal terminou. A vantagem de se morar com os pés na praia é mais-que-muita. Ainda andava às voltas com os testes e os exames e já passava tardes inteiras na praia. E não troco isto por nada.
Mas agora que os dias de férias chegaram, a minha vida resume-se a isto: acordar-almoçar-praia-jantar-sair-dormir. A minha mãe ainda não diz nada, mas lá para Agosto há-de gritar dia-sim-dia-não: «Deves achar que isto é um hotel! É só para dormir e comer!» E eu não vou ligar nenhuma, vou fazer ouvidos de mercador, que lá do alto dos meus quinze anos, a adolescência ataca com todo o seu fervor e só eu e as minhas amigas é que entendemos o verdadeiro sentido da vida. Logo, a minha mãe é uma louca histérica que só sabe dramatizar e complicar.
O meu canto é o paraíso. A agua é azul clara, quente; o areal é fino e grande. Não se precisa muito para ir: enfio o bikini, ponho a toalha debaixo do braço e levo uns trocos nos calções. Se não conseguir uma boleia com alguém, há sempre um autocarro a cinco minutos de distância. E se não me importar muito, sempre posso ir a pé. Ir à praia nestes dias é um pouco como voltar a estar no pátio da escola. Está quase lá meio mundo de amigos e conhecidos. E não usamos relógio. Ainda não foram inventados os telemóveis para o comum consumidor. Música só das colunas que as barracas de praia põem a tocar, ou o som de alguma viola por ali. Às vezes levo a minha e logo a seguir se juntam mais uns três ou quatro e estamos horas a tocar músicas que mal sabemos as letras e os acordes. Mas somos importantes por isso. É uma espécie de grandeza para o nosso ego. Com quinze anos, queremos ser conhecidos e populares. Ou pelo menos ser considerados 'fixes'.
Só sabemos que está na hora de voltar a casa quando já muita gente se foi embora e o sol começa a desaparecer para os lados de Albufeira. É a nossa deixa. Correr para casa, tomar banho, vestir o que aparecer, jantar e sair.


Sair para irmos ter com os mesmos amigos com quem passámos a tarde, quiçá conhecer gente nova, encontrarmos os filhos dos emigrantes da terra (que regressam a cada verão religiosamente). Rir muito, brincar muito, ter paixões de verão que são tão assolapadas como breves. E viver num misto de felicidade-infeliz porque sabemos que duram apenas quinze dias.
Todas as noites há festas nas praias. Fazemos fogueiras, dançamos, bebemos. De vez em quando vamos à discoteca dançar até ser de manhã. Numa tasca lá da terra fazem tostas toda a noite. Ou então vamos comprar pão-quente e uma barra de manteiga à padaria e fazemos do jardim da nossa terra a nossa cozinha. É raro chegar antes da uma. A minha mãe também costuma chegar tarde, porque depois de trabalhar também gosta de sair. Uma ou outra vez nos cruzamos à porta de casa e vou ouvindo o sermão da rica vida que levo durante estes meses. Do alto dos meus quinze anos, reviro os olhos e replico: tive óptimas notas, sou uma aluna-exemplar, ando na catequese e na Tuna, nunca me meti em drogas e confusões. Ela aceita, mas contrapõe sempre. Eu reviro os olhos mais uma vez. No fundo, já pouco oiço do que diz. Estou demasiado embrenhada em todas as sensações que uma rapariga de quinze anos sente. Especialmente quando é verão.
E aproveito os dias como se não houvesse amanhã. Porque é dessa rebeldia e inocência que somos feitos quando temos quinze anos. Sôfregos por viver. E fecho os olhos, mesmo sem vontade de adormecer, sabendo que no próximo dia viverei mais uma vez este estado de felicidade. Pouco sabendo do futuro, que não estará assim tão longe, em que nenhuma destas coisas se voltará a repetir.